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O que é maré, como se forma e como ler a tábua de marés

Carlos Henrique

Maré é a subida e a descida periódica do nível do mar, causada principalmente pela atração gravitacional da Lua e, em menor grau, do Sol sobre a água dos oceanos. O sistema de marés é o conjunto desse fenômeno: os ciclos de maré alta e maré baixa, a diferença de altura entre eles (a amplitude), as fases da Lua que reforçam ou enfraquecem o efeito e as correntes que a água em movimento produz. Para quem navega, isso significa saber quanta água existe sob o casco, onde e quando, e para que lado a água está correndo.

Como a maré se forma

A Lua atrai a água do lado da Terra que está voltado para ela, e esse puxão cria uma elevação do nível do mar. Existe também uma segunda elevação no lado oposto do planeta, resultado da combinação entre a atração lunar e o movimento de rotação do sistema Terra-Lua. Na prática, o que importa é o efeito: como a Terra gira, cada ponto da costa passa pelas duas elevações ao longo do dia e, por isso, em muitos lugares há duas marés altas e duas marés baixas por dia.

O ciclo não tem 24 horas exatas. Como a Lua também se desloca em sua órbita, o intervalo entre duas passagens dela sobre o mesmo ponto é de cerca de 24 horas e 50 minutos. Por isso os horários da maré atrasam, aproximadamente, uma hora a cada dia. A maré de hoje às 6h, por exemplo, será mais tarde amanhã.

O Sol também atrai a água, com um efeito menor que o da Lua, porque está muito mais longe. O que muda a intensidade da maré é como os dois astros estão posicionados em relação à Terra.

Termos que você precisa conhecer

Maré alta, maré baixa e amplitude

Maré alta (preamar) é o ponto mais alto do nível da água no ciclo, e maré baixa (baixa-mar) é o ponto mais baixo. A diferença de altura entre as duas é a amplitude da maré. Ela muda de um lugar para outro e de um dia para outro, e é essa amplitude que determina quanto o nível do mar pode subir ou descer no local onde você navega.

Enchente, vazante e estofa

Enchente é o período em que o nível sobe, da baixa-mar até a preamar. Vazante é o período em que o nível desce. Entre uma e outra existe um momento em que a água quase para de subir ou descer: é a estofa, quando a corrente de maré é fraca. Esses três termos aparecem em tábuas de marés, em cartas náuticas e no vocabulário dos práticos, e vale aprender a reconhecê-los.

Quanto tempo a maré leva para subir

Entre uma maré alta e a baixa seguinte passam, em média, cerca de seis horas. A subida e a descida não são uniformes: o nível muda devagar no começo, rápido no meio do ciclo e devagar no fim. Há uma regra prática, conhecida como regra dos doze avos, que divide a variação total em doze partes: aproximadamente 1/12 na primeira hora, 2/12 na segunda, 3/12 na terceira, 3/12 na quarta, 2/12 na quinta e 1/12 na sexta. Ela serve como estimativa, e não substitui a tabela do local.

Marés de sizígia e de quadratura

TipoQuando ocorreEfeito na água
Sizígia (maré viva)Lua nova e Lua cheia, com Sol, Lua e Terra alinhadosAmplitude maior: preamares mais altas, baixa-mares mais baixas e correntes mais fortes
Quadratura (maré morta)Quarto crescente e quarto minguante, com Sol e Lua em ângulo retoAmplitude menor: variação mais suave e correntes mais fracas

Para a navegação, a diferença é prática. Em sizígia, um banco de areia que parecia seguro em maré morta pode ficar descoberto na baixa-mar, e a corrente em canais estreitos pode surpreender. Em quadratura, a variação é menor, mas isso não elimina a necessidade de consultar a tábua.

Superlua e outras situações extremas

Quando a Lua nova ou cheia coincide com o ponto em que a Lua está mais próxima da Terra (perigeu), a atração é maior e as marés de sizígia ficam mais intensas. É o que se costuma chamar de superlua. O efeito existe, mas é uma variação dentro do ciclo normal, e quem consulta a previsão do local já tem esse dado incluído.

Maré astronômica e maré meteorológica

A tábua de marés prevê a maré astronômica, isto é, aquela que depende só da posição dos astros e que pode ser calculada com antecedência. O nível real da água, porém, pode se afastar da previsão por causa do tempo, e essa diferença é chamada de maré meteorológica.

  • Vento persistente em direção à costa empilha água e pode elevar o nível acima do previsto.
  • Vento soprando da costa para o mar pode derrubar o nível abaixo do previsto.
  • Pressão atmosférica baixa tende a elevar o nível do mar, e pressão alta tende a rebaixá-lo.
  • Chuva forte e cheia de rios aumentam o nível e a corrente em estuários e baías.

Por isso, a regra para o navegante é tratar a tábua como a melhor estimativa, e não como garantia. Em dia de vento forte ou frente fria, reserve uma folga maior de profundidade.

Maremoto, maré vermelha e maré negra não são maré

Os nomes enganam. Maremoto (tsunami) é uma onda gerada por um evento geológico, como terremoto submarino, e não tem relação com a maré astronômica. Maré vermelha é a proliferação de microalgas na água, e maré negra é o nome popular para um derramamento de óleo. São fenômenos de outra natureza, que usam a palavra por semelhança.

Por que a maré importa para quem navega

Profundidade e encalhe

A profundidade indicada na carta náutica refere-se a um nível de referência, e a altura da maré é somada a ele ou subtraída dele. Em baixa-mar, uma área rasa pode ficar sem água suficiente para o calado do barco. O cálculo básico é simples: profundidade na carta, mais a altura da maré naquele horário, menos o calado do barco, menos uma margem de segurança. O resultado precisa ficar positivo com folga.

Correntes de maré

O movimento de enchente e vazante produz corrente, que é mais forte em canais estreitos, barras de rios, entradas de baía e ao redor de pontas. Navegar a favor da corrente economiza combustível e tempo, e navegar contra ela exige mais potência e atenção. Quando vento e corrente vêm em sentidos opostos, o mar pode ficar curto e agitado, principalmente na saída de barras.

Atracação e amarração

Em locais de grande amplitude, o píer e o barco se movem um em relação ao outro ao longo do dia. Cabos muito curtos podem esticar na preamar ou deixar o barco pendurado na baixa-mar. Prefira cabos com folga calculada para a variação local, e use defensas em número e posição suficientes. Cuidado com a altura do cais em relação ao convés, que pode mudar bastante durante o ciclo.

Fundeio

Ao fundear, considere a profundidade na preamar e na baixa-mar. A quantidade de amarra e de cabo precisa ser calculada para a maior profundidade que a água vai atingir, e não para a do momento em que a âncora cai. Se você fundeia na baixa-mar com pouca amarra, a preamar pode reduzir a firmeza da âncora. Se fundeia na preamar, ao baixar a maré o barco pode tocar o fundo. A corrente também muda de sentido com a maré, e o barco gira em torno da âncora, então verifique o raio de giro e a distância dos vizinhos.

Encalhe e o que fazer

Se o barco encalhar com a maré descendo, ele tende a ficar em seco até que a água volte, e o risco é de adernar. Se encalhar com a maré subindo, pode sair sozinho. Antes de tentar sair com força, verifique em qual fase da maré você está, pois forçar o motor em fundo duro ou lamacento pode danificar hélice, eixo e tomada de água. Se a situação for perigosa, peça ajuda.

Como ler uma tábua de marés

As tábuas oficiais brasileiras são elaboradas pela Marinha do Brasil, por meio da Diretoria de Hidrografia e Navegação, e cobrem os principais portos e pontos de referência da costa. Elas listam, para cada dia, o horário e a altura de cada preamar e baixa-mar. Para um ponto que não tem tábua própria, usa-se a do porto mais próximo, com as correções indicadas para o local.

  1. Escolha o porto ou ponto certo, o mais próximo do local onde você vai navegar.
  2. Procure a data e confira o fuso e o horário de verão, se estiver em vigor.
  3. Anote os horários e as alturas das preamares e baixa-mares do dia.
  4. Calcule a altura no momento que importa, como a hora de passar por um raso ou de atracar, com a regra dos doze avos ou por interpolação.
  5. Some a altura da maré à profundidade da carta e subtraia o calado e a margem de segurança.
  6. Considere a meteorologia do dia e ajuste a margem.

Os aplicativos e sites de previsão facilitam o cálculo, mas é bom entender a lógica por trás deles. Se a tela falhar ou o sinal cair, você ainda consegue estimar a maré com a tábua impressa e uma calculadora. Confira a fonte do dado do aplicativo e se ele se refere ao ponto em que você navega.

Exemplo de cálculo de passagem por um raso

Os valores abaixo são hipotéticos e servem só para mostrar o raciocínio. Use sempre os dados da sua carta e da sua tábua.

  1. A carta mostra que o ponto mais raso da rota tem 1,0 m de profundidade em relação ao nível de referência.
  2. O calado do barco é de 0,8 m, e você quer uma folga de segurança de 0,5 m. A profundidade necessária é de 1,3 m.
  3. Faltam, portanto, 0,3 m, e a maré precisa estar pelo menos 0,3 m acima do nível de referência no momento da passagem.
  4. A tábua indica que a maré passa de 0,3 m a partir de determinado horário na enchente. Você planeja passar um pouco depois dele, e não no limite.
  5. Se o dia tem vento forte contra a costa ou pressão baixa, o nível pode ser maior que o previsto, mas contar com isso é aposta. Se o vento é da costa para o mar, pode ser menor, e a margem deve aumentar.

O raciocínio é sempre o mesmo: o que a carta oferece, mais o que a maré adiciona, menos o que o barco precisa.

Erros comuns de quem está começando

  • Consultar a tábua de outro porto sem checar a distância e as correções para o local real.
  • Ignorar o horário e olhar só a altura máxima do dia. O que importa é a altura na hora em que você estará no ponto crítico.
  • Esquecer a diferença entre o nível de referência da carta e o nível médio. A profundidade da carta é medida a partir de um nível de referência, e a maré se soma a ele.
  • Confiar só no sonar. Ele mostra o que está embaixo do barco agora, mas não avisa do banco de areia que está à frente.
  • Ignorar a corrente em barras e canais, principalmente em sizígia, e tentar entrar contra a vazante com o vento oposto.
  • Não prever o retorno. Quem sai com a maré subindo pode voltar com a maré baixa e encontrar a entrada rasa demais.

Barras, estuários e baías: onde a maré pede mais atenção

A maré em mar aberto pouco se percebe, mas ao entrar em estuários, baías e barras de rios ela se concentra e fica mais forte. A água precisa passar por uma seção estreita, o que acelera a corrente. O fundo muda com frequência por conta de sedimentos, e o canal navegável de ontem pode não estar no mesmo lugar hoje. Nesses locais:

  • Entre preferencialmente com maré enchendo e já com água suficiente, com margem para o caso de atrasar.
  • Evite entrar ou sair quando vento e corrente estão em sentidos opostos, porque o mar fica curto e irregular.
  • Siga o canal balizado e confirme com a marina ou com os práticos locais o estado atual do fundo.
  • Mantenha o motor em boas condições e uma segunda forma de propulsão ou de fundeio à mão, porque a corrente leva o barco rápido para onde não deve.

Em dúvida, espere a estofa, quando a corrente está fraca, ou a maré subir um pouco mais. Perder uma hora é bem mais barato que desencalhar um barco.

Instrumentos e informações que ajudam a bordo

O nível da água não é medido apenas por tabela. Marégrafos fixos em portos e sistemas conectados fornecem o valor real, e é útil entender como funcionam os sistemas de medição de marés digitais para barcos e lanchas. O sonar do barco mostra a profundidade sob o transdutor no momento, que é a confirmação final do que a tábua previu.

Para a leitura do tempo, ajudam os sensores meteorológicos náuticos, que medem pressão, vento e outras variáveis no próprio barco, e a leitura de boletins, tratada em como interpretar previsões marítimas a bordo. Quem tem um plotter ou display multifuncional pode ainda integrar dados de tempo à tela de navegação, como explicado em aplicativos de previsão do tempo integrados ao painel.

Cuidados com o barco em locais de grande amplitude

  • Casco e partes submersas: a alternância entre molhado e seco acelera a incrustação e a corrosão na linha d'água. Inspecione com frequência e mantenha a proteção do casco em dia.
  • Amarração: revise cabos, cunhos e fixações. Eles trabalham constantemente com a variação do nível.
  • Defensas: posicione em altura que cubra o contato com o píer em toda a faixa de variação.
  • Sentina e bomba de porão: em barcos que ficam em seco na baixa-mar, confira se o casco está apoiado corretamente e se não há infiltração.
  • Tomadas de água do motor: em fundo de lama ou areia, o barco que toca o fundo pode aspirar sedimento. Verifique filtros e o fluxo de água de refrigeração após qualquer toque.

Rotina de planejamento com a maré

  1. Consulte a tábua do dia para o porto de referência, pelo menos na véspera.
  2. Identifique se é sizígia ou quadratura (Lua nova ou cheia, ou quartos), e espere correntes mais fortes na primeira.
  3. Marque na carta os trechos rasos da rota e calcule a altura mínima de maré para passar com folga.
  4. Escolha o horário de saída, de passagem pelos trechos críticos e de retorno.
  5. Confira vento e pressão, que podem alterar o nível previsto.
  6. Deixe uma alternativa: um local para esperar a maré subir, caso você atrase.
  7. Durante a navegação, compare a profundidade do sonar com o esperado e corrija o plano se houver diferença.

Perguntas frequentes

Todo lugar tem duas marés por dia?

Não. Muitos pontos da costa brasileira têm duas preamares e duas baixa-mares por dia, mas há regiões com padrão diferente, em que a forma do litoral e da bacia oceânica muda o ciclo. A tábua do local diz exatamente quantas e quando.

A maré existe em lagos e rios?

Em grandes lagos o efeito é desprezível. Em rios próximos à foz, a maré do mar pode se propagar rio acima, alterando nível e sentido da corrente por boa distância, e por isso estuários exigem a mesma atenção.

A tábua de marés está sempre certa?

Ela é muito boa para a parte astronômica, mas não prevê o efeito do vento, da pressão e da chuva. Considere uma margem de segurança e use o sonar para confirmar a profundidade real.

Qual horário é o melhor para navegar?

Depende do objetivo. Para passar por um raso ou entrar numa barra, o ideal costuma ser perto da preamar, com água suficiente. Para navegar com a corrente a favor, escolha a fase de enchente ou vazante conforme a direção da sua rota, e evite enfrentar corrente forte contra o vento.

Antes de sua próxima saída, abra a tábua do porto mais próximo, anote as preamares e baixa-mares, descubra se a Lua está em fase de sizígia ou quadratura e marque na carta o trecho mais raso da rota. Com esses três dados, você já sabe quando passar ali com segurança e quando esperar.

Escrito por

Carlos Henrique

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